Capitulo Um: Lembranças
Eu estava em meu quarto, absorta em
pensamentos. Na verdade é assim que eu fico na maior parte do tempo. Pensando
na vida. Esse ano tem sido um pouco difícil para mim. Vivo com minha tia,
Stacy, em Oakland – Norte da Califórnia. A morte levou meu pai e minha mãe. Meu
pai morreu em um acidente de carro. E a depressão levou minha mãe a se suicidar
logo em seguida. Ela se suicidou com um tiro na cabeça, e comigo de plateia.
. . .
Sentei-me em minha cama e peguei um papel na gaveta
da minha escrivaninha. Uma carta minha endereçada a minha mãe – e que nunca
chegará a suas mãos. Lutei contra as lagrimas que em segundos inundariam toda a
minha visão, e comecei a ler:
“Eu vi você morrer.
Eu ouvi você chorar toda noite em seu quarto.
Eu era tão jovem. Mas entendia.
Você deveria ter pensado melhor antes de me deixar.
Você nunca pensou em ninguém.
Você só viu a sua dor.
E se esqueceu de que também sou humana.
E agora eu choro no meio da noite.
Pela mesma coisa.
As lagrimas, enfim
venceram.
E como eu sou do tipo
que quando está triste, tenta se deprimir ainda mais eu peguei a carta da tia
Stacy, para ler:
“Antes que cada um de nós dê o ultimo suspiro, as melhores coisas já
aconteceram e tem acontecido. Deus nos faz lembrar-se do quanto fomos felizes.
Talvez aquilo fosse para ter acontecido. Tudo tem um propósito e um por quê.”
E está é a parte da
carta de tia Stacy. Não consegui chegar ao fim. Nunca consigo. Pois as lágrimas
caem involuntárias e não cessam mais.
“Tento me
lembrar da minha mãe viva, mas é impossível. Quando penso nela, vem à imagem do
corpo já sem vida.”
Quando vi
que não voltaria mais a ouvir sua voz, quando cantava para eu dormir, fiquei em
choque. Já faz três anos que ela se foi, eu tinha 13. Hoje tenho 16. E a ficha
logo cai, e os questionamentos vêm. “Quem vai fazer o jantar, quem vai me levar
para a escola, e quando eu ficar doente. Quem cuidará de mim?” Em resposta,
recebi o silêncio. E percebi que quando as pessoas morrem levam consigo as
respostas.
Na maioria
das vezes, tento não me apegar a nada.
Afinal,
nada é para sempre. Tenho medo. Medo de sair na rua. Pois toda vez que saio,
parece que sou um livro aberto, e que qualquer um pode ler do que se baseia
minha vida. Por que será, que o que mais amamos, nunca é nosso? E quando é nosso
logo perdemos?
E o que
mortes coletivas resultaram? Isso mesmo, em uma menina sem muitos amigos.
Amargurada. Uma rebelde rockeira que já não acredita mais em Para Sempre muito
menos em Finais Felizes.
Uma menina
doce, mas que com o tempo se tornou amarga. Mas além de tudo, ela é humana.
Ela foi a
menininha que amava rosa. Foi a menininha que amava passear com a mãe. Que
sempre brincava de cavalinho com seu pai. A menininha que adorava assistir
desenhos animados com seus pais. Que amava quando fazia bolo com sua mãe. Mas a
menininha cresceu. E se afundou em um mar de solidão. Mas ela não é sozinha, é muito
pior. Ela se sentiu sozinha e ainda se senti um pouco. Mas a palavra que não
sai da sua cabeça e de seu coração é: Esperança.
Por mais
que pareça que a vida quer te apedrejar, o importante é se manter erguida.
Continuar respirando. Por que se a felicidade um dia acabar, então a tristeza
um dia também deixará de existir.
Nem tudo é
para sempre. Mas a vida continua. O tempo não para. E se você não andar para
frente o mundo irá girar e você ficará para trás.
Essa noite
foi uma de muitas que parei para refletir. Pensar em como a vida não passa de
um filme clichê. A vida pode ser comparada a um conto de fadas. A vida da
maioria é
feliz, mas no final todo
mundo morre. Eu decidi dar uma oportunidade para a felicidade. Decidi parar de
lamentar. Será difícil, mas valerá a pena. Pelo menos tentar. Quem sabe um dia
a felicidade expulse a tristeza a chineladas da minha vida.
E hoje é um daqueles dias em que a insônia te
perturba. Uma noite em que você se pega cochilando. Mas não dormindo. Tia Stacy
já estava em seu quarto. Hoje não foi um dia muito agradável para ninguém.
Discutimos. Minha tia não aguenta mais me ver deprimida, em meu canto, escrevendo. Fazendo
cartas que nunca chegariam para seu devido destinatário. Cartas para minha mãe.
Sentei-me,
peguei meu caderno em minha escrivaninha e comecei a escrever. Mas uma de
muitas cartas:
“Mãe. Sempre me lembro dos
verões.
Das canções que me ensinava. Que
hoje não passa de meras musicas aprendidas.
Se eu pudesse voltar atrás.
Seria diferente. Não deixaria o
papai viajar.
Pai. Se pudesses ler o que
escrevo. Ou se eu pudesse te escrever uma carta, a qual você a lê-se. Eu
começaria escrevendo assim:
Papai. Sinto sua falta. Às vezes o
ar já não se torna suficiente. As palavras já saem sem som de minha boca.
Quando me lembro de ti, lagrimas vem aos olhos, ameaçando me afogar cada vez
mais. Se eu pudesse voltar atrás. Abraçaria-te mais. Diria o quanto és especial
mais vezes. E não teria deixado você viajar brigado com a mamãe. Sinto falta até do seu
cheiro e de suas manias.
Mas a minha esperança é que na eternidade eu vou te ver.
Só espero que não demore muito.
Eu... Te amo.”
. . . .
06:45
Acordei não muito disposta. Até porque ser
acordada por um despertador barulhento tira todo o humor. Minhas olheiras são
breves provas de uma noite não muito bem dormida.
Deixei meu egoísmo de lado e decidi que assim
que minha tia acordasse, eu iria falar com ela. Em mim, o amor vence o orgulho.
Não gosto de ficar brigada com a pessoa que mais me entende – e a que mais amo.
Levantei minha cabeça e percebi que havia um
bilhete em minha escrivaninha – ele não estava ali quando peguei no sono, à
noite. O peguei e percebi que a letra era da Tia Stacy. Nele estava escrito:
“Ashley, meu bem. Passei em seu quarto quando dormia para ver como estava.
E percebi que você falava durante o sono. Não quis te acordar. Porque você
repetia incansavelmente a palavra Esperança. Eu sei meu anjo, o quanto é
difícil, mas, o único conselho que posso lhe dar é: Sonhe e nunca desista.
Tenha fé, pois não é fácil e nunca será. E tente correr atrás de seus sonhos
até esgotar suas forças. E quando suas forças se esgotarem estarei do seu lado.
Beijos, Tia Stacy.”
Guardarei essa carta.
Se para sempre existisse, eu diria que guardaria essa carta para sempre. Às
vezes me esqueço, que só porque eu não acredito, não quer dizer que não seja
real. Talvez “Para Sempre” exista, talvez “Nunca” também.
Olhei para o relógio em minha parede e me irritei
ao saber que mais uma vez, meus pensamentos me fizeram perder mais um dia de
aula. Já são 07:58.
Para uma menina no ensino médio, perder aula é
prejudicial, nessa altura do campeonato.
. . .
Levantei-me, fui ao
banheiro. Vesti uma calça Jeans e
uma regata branca e
fiz minha higiene matinal. Depois, fiquei me olhando no espelho. Herdei meus
cabelos loiros e olhos verdes da minha mãe, e estatura baixa do meu pai. Meus cabelos desciam até um pouco acima de
minha cintura.
Hoje vou sair para procurar emprego, rodarei
Oakland de uma ponta a outra. Se bem que aqui não é tão difícil arrumar um.
Desci ao primeiro
andar, calcei meu velho All Star surrado e peguei minha bolsa – que se
encontrava no braço do sofá da sala. Vi que tia Stacy já tinha ido trabalhar.
O ar na rua estava
úmido. Nublado. Na praça em frente ao meu prédio pessoas fofocavam. Caminhei
até a praça e sentei-me em um dos bancos. Logo uma menina ruiva e alta veio e
se sentou ao meu lado. Lembrei-me de ter visto ela na escola, uma daquelas
meninas que adoram perturbar os outros.
– Você é Ashley num
é? – perguntou ela com uma voz suave.
– Sim, eu sou. E você
é...
– Sou Sarah.
– Hum. – falei.
– Você não parece
animada. – disse ela – Como se esse mundo não fosse o perfeito para você.
– Esse mundo perfeito
nunca vai existir. – disse.
– Talvez. O mundo é
perfeito sim. Mas os humanos que o destrói.
– E continuam
destruindo. Mas afinal, por que está falando comigo? Por que falou que o mundo
não parece perfeito para mim? – perguntei de uma vez.
– Sei lá. Gostaria de
te entender, por trás das fofocas do colégio. Pois se eu fosse pela cabeça dos
outros, você estaria em Hollywood, contracenando uma peça de William
Shakespeare. – ela falou bem rápido.
Comecei a rir. E ela
também entrou no embalo. Nunca falei com ela, achei que ela era mais uma
daquelas chatas do colégio. Mas não, ela parece ser legal e sincera.
– Sabia que fora dos
muros da escola, eu sou repórter? – Perguntou Sarah distraída.
– Não. Como assim
repórter? Profissional?
– Não, não. Sou
repórter tipo... – ela fechou os olhos, talvez pensando em como me explicar. –
Por diversão. Faço perguntas a algumas pessoas. Para entender um pouco o que
elas pensam.
– Hum, legal. –
Falei.
– Quer ser minha
entrevistada? – perguntou ela.
– O-oque? – me
engasguei, não sou muito boa com palavras. – Eu a entrevistada?
– Sim, por favor,
Ash, vai ser divertido você vai ver. – Era a primeira vez que alguém me chamava
de Ash depois da morte da minha mãe, com exceção da minha tia .
– Ok, mas... Porque
não foi a aula hoje?
– É que ontem... –
Ela fez uma pausa. – Não, nada. É que eu perdi a hora hoje.
Percebi que ela ficou um pouco nervosa, porque
será que ela não foi à aula. Mas... Não é da minha conta. Se não ela teria
contado.
– Ta, eu aceito ser a
entrevistada. Mas é que não posso agora. – Olhei para o relógio em meu pulso. –
Já são 8:52. E eu preciso andar para procurar emprego, entende? – falei.
– Sim, entendo. Então
podemos começar amanhã, 10:00
na hora do intervalo.
Sentarei em uma mesa vaga, sente-se comigo ok. – ela disse se levantando.
Nem tive tempo de
responder, ela saiu andando.
. . . .
40 minutos depois de
Sarah ter ido embora, eu já tinha revirado essa cidade toda. Fui de Oakland á
San Francisco. E só achei dois empregos disponíveis. Um de correio, e o outro
de “babá”, na verdade não é bem babá, eu só teria que levar e buscar uma menina
na escola. E é esse que eu vou escolher, pois nem me imagino carteira.
Já são 9:30 e eu estou em meu quarto e como
não tem nada para fazer, decidi ir a casa do Sr e Sra Jones, para saber da
disponibilidade do emprego.
Peguei um taxi e fui
em direção a casa. Passados 20 minutos, cheguei. Toquei a campainha e fiquei
esperando. Logo uma menininha baixinha e com cabelos bem escuros atendeu a
porta. Ela parecia ter 7 ou 8 anos de idade.
– Oi – a voz dela era
calma e suave.
– Oi. A Sra Jones
está em casa? – perguntei.
– Sim, mas qual é o
seu nome?
– É Ashley – falei.
– Só um minuto.
A menina saiu correndo para dentro de casa
chamando: “Mamãe, mamãe”.
Enquanto eu esperava,
me virei para a rua e fiquei vendo o movimento dos carros, é interessante ver a
evolução das coisas. Quem pensou em construir algo que carregasse pessoas a
quilômetros e além do mais sentadas...
– Posso ajudar? –
Escutei uma voz elegante de mulher atrás de mim.
– E-eu sou Ashley.
Estou interessada no emprego. Para levar e buscar a menina na escola. – Falei.
Cheguei a gaguejar de nervoso.
– Ah, sim. Entre por
favor, Srta Ashley.
. . .
Já estava em um táxi
voltando para casa. Deu tudo certo na casa da Sra Jones, que agora tinha um
nome. Rosienny. E a menininha – muito educada por sinal – se chama Lorranny.
Agora tenho um emprego, na verdade eu vou leva-la para a escola as 13:00,
busca-la as 17:30 e ficar com ela até as 18:30 ou 19:00 enquanto a mãe não
chega. Para isso, nada mais do que 550,00 por mês.
(12 horas depois)
Agora estou jantando
com tia Stacy. Mas cedo quando cheguei a casa, ela já estava preparando o
almoço. Boa noticia... Nos entendemos, nos abraçamos, choramos, nos perdoamos e
aqui estamos nós, conversando sobre meu emprego.
– Eu começarei na
Segunda-Feira. Hoje é... – estou um pouco perdida ultimamente, nem lembro mais
a data.
– Quinta – completou
minha tia. Então eu ficarei quase que o dia todo sem te ver, toda semana. –
Resmungou tia Stacy.
– Pelo menos é por
uma boa causa tia. – Falei já me levantando para lavar meu prato. Minha tia
também havia acabado o jantar e agora me ajudava na louça. Terminamos rápido –
tinha pouca coisa para lavar.
– Acho que já vou
indo dormir. – Ela me deu um beijo na testa e já se dirigia para as escadas. –
Boa noite meu bem.
– Boa noite...
Minha tia já esta
deitada e eu estou aqui deitada, sem um pingo de sono.
Em mim, a insônia
sempre vem com o passado. E mais
uma vez meu passado
me condena. Mas uma vez meu passado me destrói. “Lágrimas são as ultimas
palavras quando o coração perde a voz” Então o meu já ficou mudo há séculos
atrás. Na minha vida, lágrimas virou rotina. De quem será toda a culpa dessa
destruição? Da morte... Ou minha?
Minha tia quer muito que eu vá à psicóloga,
ela já até marcou uma consulta para mim. Eu ainda estou pensando nesse assunto.
Não sei se ficarei muito cansada. Porque ir ao médico aos sábados, ninguém
merece.
Esta é a primeira
noite em que eu não escrevi uma só carta para meus pais. A carta que virou
rotina, até virou mania. Tudo que me deprime, vicia. E tudo que me vicia, deprime.
Já faz tempo que a palavra felicidade, foi removida do dicionário que é a minha
mente. Mas, eu quero aciona-la novamente. Não em meu dicionário, mas em meu
coração.
Quero ser co-autora
da minha vida, e não vítima.
Quer ser feliz pelo
pouco que Deus me deu e não triste cobiçando mais.
Quero ser
simplesmente eu e não o que os querem que eu seja. Só quero ser feliz. Pelo
menos uma vez. Pois eu ainda tenho uma chance. Talvez uma ultima, mas, continua
sendo uma.
. . .
Depois de 30 minutos,
acabei pegando no sono, não foi fácil. Antes de dormir – como de costume –
acabei chorando. Mas uma vez. Porém até eu me esqueço de que sou humana e que
não sou feita de aço. Eu
sou frágil. Tenho
sentimentos e emoções. Eu sofro como qualquer um humano sofre.
. . . . . . . . . .
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